quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Os Ratos Roeram a Roupa da Rainha do Rock


Esta semana me encontrei casualmente com a Ana Bhering, amiga médica já de outros carnavais, e ela me pareceu particularmente chocada. Explicou-me a razão: acabava de retornar do show da Rita Lee em Aracaju, sua despedida dos palcos, e ainda não havia se recuperado do susto e da indignação diante do que viu naquela noite. Pior, havia visto imagens brutais que lhe pareciam estar sendo mantidas deliberadamente ausentes dos principais veículos de comunicação. Imagens de fatos que dariam uma outra visão, pelo menos mais aprofundada, da "versão oficial" mantida pelos principais veículos de imprensa. Saí pensando em como continuamos formando nossos julgamentos com base no que a imprensa se digna a nos mostrar, como fazem os mágicos que atraem nossa atenção para a mão esquerda, enquanto executam o truque com a direita. Mas pensei também que para isso "Deus criou a internet, viu que era boa, e então fez as redes sociais e os blogs". Foi para permitir que as testemunhas oculares divulgassem o outro lado da moeda, dando assim os elementos para que o leitor, de posse de mais informações, julgue por si mesmo.
Como o objetivo deste blog é, em última instância, chegar à essência das coisas, cedo este espaço à amiga Aninha, a destemida Raposa do Orkut, para que relate o que viu com suas palavras. E cada um que julgue por si mesmo. Alea jacta est.
No dia 28/1/2012 fui a Aracaju/SE para assistir ao show de Rita Lee, que havia sido anunciado como o último de sua carreira. O evento fazia parte da programação do “Verão Sergipe”, com entrada franca, e o show foi apresentado na praia de Atalaia Nova.
Perdi o vôo de ida e, por este motivo, quando cheguei ao local o show já tinha começado. Na plateia estavam cerca de 20.000 pessoas. Apesar disso consegui passar aos poucos pela multidão até me posicionar em frente ao palco, prova de que o público estava aproveitando pacificamente o espetáculo. Por onde passei só vi gente alegre, e todos foram tão cooperativos com a minha tentativa de passar na frente que me lembro ter pensado em como o povo nordestino sabe aproveitar festas de rua – neste caso, na praia.
Contudo, durante o espetáculo, policiais armados com cassetetes entraram no meio da multidão, possivelmente em busca de drogas, empurrando e intimidando as pessoas com tamanha truculência que Rita Lee, por duas vezes, interrompeu o show pedindo para que eles não estragassem o evento, uma vez que o público queria apenas se divertir e ninguém estava provocando qualquer tumulto. Embora Rita tivesse feito estes primeiros apelos com bom humor, sendo intensamente aplaudida, pouco depois surgiram dezenas de policiais abrindo caminho na multidão, inexplicavelmente EMPURRANDO E AGREDINDO a platéia.
Algumas cenas de agressão foram gravadas e estão circulando na internet. Não muitas, pois obviamente quem estava perto não se atreveu a registrar (na mira de cassetetes você tentaria filmar?) Eis uma delas:
https://www.youtube.com/watch?v=LnknEZSW5rs&feature=youtube_gdata_player

Visivelmente emocionada, Rita saiu em defesa dos fãs enfrentando a polícia e exigindo retratação pelo uso da violência. Nunca vi tamanha coragem.
“Isso é força bruta! Vocês não têm o direito de usar a força na meninada que não tá fazendo nada! Cadê o responsável? Eu quero falar! Esse show é meu, não é de vocês! Esse show é minha despedida do palco, e vocês continuam tendo que guardar as pessoas – não agredir, seus cachorros! Eu sou do tempo da ditadura, vocês pensam que eu tenho medo? Eu sou mulher! MULHER! Eu tive três filhos, tenho uma neta, 67 anos, o que vocês vão fazer? É isso que vocês querem? Chamar atenção? Eles querem chamar a atenção! Querem cantar? Querem o que? É horrível! Por que isso? Por que?”
“Não, eu não vou esperar! Esse show é meu, as pessoas estão esperando eu cantar, não a gracinha de vocês, seus filhos da puta! Agora venham me prender!”

Eu nunca havia presenciado cenas de violência gratuita como as ocorridas naquela noite, muito menos um artista se expondo dessa maneira para defender sua platéia. A imprensa, contudo, divulgou amplamente a reação de Rita SEM MENCIONAR A VIOLÊNCIA, com a clara intenção de justificar sua detenção ao término do espetáculo por desacato à autoridade.

A vereadora Heloísa Helena, que estava na platéia e presenciou tudo, foi até a delegacia prestar depoimento em favor de Rita Lee. Depois declarou pelo twitter:

“Chegando de Aracaju após Lamentável e Triste acontecimento na tentativa de Rita Lee em promover uma Linda Despedida de Palco. Aceito democraticamente ferozes críticas recebidas MAS entre a "contabilidade de seguidores" e minha Consciência em Relatar o que Vi ficarei sempre com minha Consciência e nunca na Comodidade do Silêncio! O Assunto está na Justiça e por Obrigação Moral vou Testemunhar! Deixando de lado as explicações a quem eu Respeito! O que aconteceu? Eu estava bem pertinho e Vivenciei...Vi e ponto!!! Após "ação policial" de empurrões contra Meninada (que não estava fumando maconha nem badernando!) Rita Lee verbalizou: Vão procurar os políticos ladrões...tem tanto político fdp pra vocês acharem"...mais ou menos isso! Daí começou o Conflito/Tumulto... Ela ficou todo o Tempo explicando que era uma Mãe, Avó, 67 Anos, queria fazer uma Festa Linda Despedida e pediu que os Policiais não ficassem todo o tempo circulando na frente do Palco (eu estava e não tinha confusão!) Depois, claro...Provocação gera Provocação! Vou testemunhar em Defesa da Rita Lee como faria diante de Qualquer Injustiça a Policial, Catador de Lixo, Morador de Rua”.

O governador Marcelo Deda afirma que estava no camarote e “não viu nenhuma ação policial que justificasse a reação da cantora”.

AMIGOS, EU AFIRMO QUE HOUVE SIM, AÇÃO ABUSIVA E INEXPLICÁVEL POR PARTE DA POLÍCIA. EU ESTAVA NA PLATÉIA E PRESENCIEI TUDO DE PERTO. OS POLICIAIS USARAM CASSETETES, INTIMIDARAM E BATERAM. ASSIM COMO A VEREADORA HELOISA HELENA, ESTOU DECLARANDO O QUE VI.

Um rapaz membro do fã clube da cantora, que a acompanha há anos em seus shows pelo Brasil, foi empurrado e agredido sem nenhum motivo aparente. Não estava usando ou portando drogas e não havia oferecido qualquer resistência à passagem dos policiais, mas obviamente se recusou a ser levado por eles para fora do local, sabe Deus para onde e com qual objetivo. Esta cena também foi filmada (vejam link abaixo)
http://www.youtube.com/watch?v=j3DF75MwM5c&feature=related

O que mais me espantou foi constatar que situações como esta são encobertas de tal forma pela imprensa que devem ocorrer muito mais frequentemente do que imaginamos, sem que a verdade
jamais chegue ao conhecimento da população. Inúmeros pseudo jornalistas apareceram como ratos para defender as autoridades em blogs medíocres, divulgando criticamente a reação de Rita Lee como se nada tivesse acontecido para provocá-la. Nem preciso dizer que não o fazem a troco de nada, me causa nojo pensar. Vários ainda elogiaram a polícia “pelo bom senso de aguardar o fim da apresentação para aplicar a lei prende-la sem causar maiores tumultos”.

O promotor Antonio Rolemberg afirmou no twitter:
1- Rita Lee se excedeu nas declarações”
(Pergunto: E A POLÍCIA? NÃO SE EXCEDEU EM NADA NÃO?)
2- “O Poder público deve ser respeitado”
(Pergunto: SÓ O PODER PÚBLICO? MEU CARO, TODO CIDADÃO MERECE RESPEITO!)

Diante da repercussão do caso, e da impossibilidade de freiar a divulgação da verdade nas redes sociais, o governador Marcelo Deda declarou via twitter:
“Ainda sobre o show da Rita Lee: o cachê foi pago e o show, mesmo com problemas, foi feito até o fim. Contrato executado, pagamento feito, caso encerrado”.
Convenhamos, é muito conveniente “encerrar o caso” quando a verdade vem à tona.
Sabem vocês que sou fã de Rita Lee e acompanho sua carreira desde a infância, contudo o que estou relatando aqui nada tem de parcial. A violência gratuita da polícia não foi testemunhada apenas por mim. Eu nunca tinha vivido situação semelhante, foi assustador. Abram seus olhos, a ditadura não acabou.